Fugir da razão e buscar na superstição as coisas que quer e deseja é coisa natural do homem que remonta desde o início da civilização, cuja diversificação cultural no percorrer do tempo e desenvolvimento humano, consolidou diversos sistemas que substituem a razão pelo oculto à superstição, ao místico, ao religioso etc.
É mais fácil ao homem valer-se do devaneio, cuja função maior é suprir seus desejos – conscientes e ou inconscientes - do que pela razão, pois a coisa se dará somente por fatos e acontecimentos fortuitos a que normalmente pela lógica aconteceria.
Contudo, essa busca pelo apego na crença do próprio desejo, traduzida para o mundo exterior como algo que acontece e é controlado fora da pessoa, chega à simbologia material, ou seja, aos amuletos. Esses amuletos de início eram, por exemplo, uma simples pedra ou um pedaço de madeira, osso etc., contudo, seu significado era como que sagrado, percebido por certos rituais, os quais não seguidos a coisa desejada não se concretizaria. Nesse tocante, nada mudou até os dias atuais, ou seja, o homem se vale de algum material cujo rito e significado cultural lhe dá, advindo do além, o fato e acontecimento que realizam o que se mais quer e deseja.
São inúmeros os achados arqueológicos que comprovam advir o conceito abstrato sorte desde antes da Antigüidade. Isso mostra que superstição foi a mola da criatividade e início das explicações das coisas não explicáveis, como por exemplo, os fenômenos da natureza e, mais tarde, o pilar para as primitivas religiões nas quais os “xamãs” usavam diversos amuletos, pois, cada um tinha seu valor e poder de atuação em determinados casos. Esse foi a origem do conceito primário politeísta das religiões que surgiram a seguir.
Para maior esclarecimento, o verbete superstição vem do latim que significa culto religioso, veneração e, segundo alguns lingüistas, significava, em seu tempo, adivinhação. Sob essa última interpretação, pode-se dizer então que a sorte nada mais é que uma criação abstrata infantil do homem antigo para suprir-lhe a angustia por não ter o que se queria e desejava.
Com o tempo, esse querer e desejar subiu na escala de importância social e passou a ser cultuado em conjunto nas nascentes cidades para que coisas comuns a todos sucedessem dentro das melhores expectativas, como por exemplo, uma boa colheita, proteção contra inimigos etc.
A sorte entra em jogo e de modo ilógico faz com que as pessoas deixem a razão de lado, pois se é mais fácil entregar ao além as próprias responsabilidades e ou realidades. Desse conceito nasceu a pilastra de todas as religiões, ou seja, Deus ou os deuses, ou apenas um ou mais deuses, em conjunto ou não, detinham o controle sob a coisa chamada sorte.
Em outras palavras, o homem passou sua sorte ao além que, em pouco tempo se tornou divino. Todavia, a abstração sorte, não há negar, teve suas dissidências de acordo com a proliferação humana e diversificação cultural, aparecendo conceitos relacionados como os de proteção, de cura, de coragem etc.
Isso é fácil de observar nos místicos e supersticiosos que nos dias atuais se valem desse conceito. Esses seguem ritos e processos milenares, coincidentes com os usados a milhares de anos atrás, pois em nada mudou a metodologia a cerca da obtenção da sorte antiga, segundo consta nos estudos e comparações arqueológicas no percurso temporal da história humana. As únicas coisas que mudaram foram as representatividades materiais desse conceito abstrato, tais como o pé de coelho, a figas, a ferradura, o elefante, o gato, o trevo de quatro folha etc.
O que se faz hoje, com ou sem amuletos, é buscar, ignorando a razão, à proteção, à fortuna, à força, à saúde etc., sempre delegando à sorte a responsabilidade de fazer o que deve ser feito, ficando a quem deseja apenas a espera do fato e ou acontecimento, posto que, a sorte, em síntese, é uma questão de fé.
Mesmo com toda a racionalização humana, com sua atual ciência e tecnologia, não se faz possível destruir o que o folclore mantém acesso, entendendo que, culturalmente, é a própria cultura que dá o caminho e subsídios para a ciência e desenvolvimento tecnológico acontecer como tal e, destarte, também, em contradição, não é difícil encontrar um médico com vasto conhecimento científico e rica cultura com um chaveiro de pede coelho no bolso, ou um renomado advogado com uma nota de um dólar na carteira, ou até mesmo um intelectual com um trevo de quatro folhas plastificado...
Independente do abstracionismo da sorte, não há negar que essa está presente na vida humana desde os primórdios e que não deixa de ser isso uma realidade, independente de essa ser a responsável pelo resultado final ou não. Contudo, uma pergunta:
Como seria a vida humana se essa não abstraísse o conceito sorte para abafar seus anseios e desejos de futuro – certos ou incertos?
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* Texto escrito e enviado pelo advogado icoense Dr. Miguel Lima ["Sejamos felizes em 2013, onde ser feliz é fácil, difícil é ser simples"]
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