Icó: A Semana Santa e as Imagens de Roca


As procissões da Semana Santa do Icó antigo caracterizavam-se pelas procissões e atos religiosos onde ainda na atualidade são utilizadas algumas imagens de roca, sejam aquelas imagens que tem como característica serem vestidas.

Em Icó existem três imagens de roca: Bom Jesus dos Passos, Nossa Senhora das Dores e a escultura articulada do Senhor Morto, que eram [e são] usadas nas procissões da quaresma e na Semana Santa.


A imagem de Nossa Senhora das Dores, hoje guardada na Matriz, que deve ser obra de meados do século XIX, não é mais trajada com suas vestimentas originais, hoje é vestida com túnica de cetim, sem nenhum resquício do possível esplendor antigo.

O Senhor dos Passos, exposto na Igreja do Bonfim passou anos escondido na sacristia da Expectação, até que dona Lucinha Almeida, Zeladora do Apostolado da Oração, à revelia da hierarquia eclesiástica, nos anos de 1980, o resgatou do esquecimento, deu-lhe nova peruca de cabelos naturais [que algum fiel doou] e vestiu-lhe de cetim roxo.

No caso da quaresma eram utilizadas na Procissão dos Passos as imagens de Nossa Senhora das Dores, que o povo [e padres] achavam ser “Nossa Senhora Verônica”, uma vez que nas mãos da virgem era colocado o lenço que havia enxugado o rosto do senhor e o Senhor dos Passos, guardada na Igreja do Senhor do Bonfim. Esta procissão tradicionalmente acontece ainda na última sexta-feira da quaresma, que precede ao domingos de ramos.

Na Sexta-Feira Santa, utilizavam-se as imagens do Senhor Morto e Nossa Senhora das Dores, quando grande imagem do Senhor era exposta crucificada montado no altar-mor da igreja matriz e num ato teatral era “descida da cruz”, no meio da solenidade da Paixão de Cristo, pelas mãos da irmandade do Santíssimo Sacramento, posta em seu esquife e levada em procissão: a procissão do enterro do senhor.

Esse tipo de espiritualidade no entender de Cristina Ávila e Silvana Trindade “até 1750 o Brasil caracterizou-se por uma espiritualidade medieval: foi ela que se mostrou presente na organização em confrarias, foi ela que coloriu a religiosidade popular, através do gosto e apego ao visual e ao rito, de que são expressões máximas as missas solenes, as procissões, romarias, novenas, terços, etc.”³

Não se sabe ao certo o tempo da criação dessas procissões, mas há de supor-se que como cópia do modelo português tenha sido implantada no período barroco entre os séculos XVIII e início do XIX.

Nota-se claramente que as imagens são um tanto toscas, particularmente as do Senhor dos Passos e Nossa Senhora, montadas sob ripas, mãos e rostos elaboradas com imperfeição, ao passo que o a imagem do Senhor Morto tem articulações nos braços de forma que ele converte-se de crucificado em morto.

Lembro-me claramente do grupo de Irmãos do Santíssimo, fazendo as vezes daqueles que as escrituras referem-se no Evangelho da Paixão, retirando o Cristo da Cruz, despregando-a cravo a cravo e retirando-a da forma clássica da descida da cruz. Naquela ocasião seu Teobaldo Muniz desempenhava garbosamente o papel de José de Arimathea.

O ato da retirada da imagem de Jesus acontecia antes do rito da adoração da Cruz, uma vez que na solenidade do Icó, o tradicional “Eis o Lenho da Cruz” era adaptado a este rito barroco. Os fiéis curiosos para verem na íntegra o secular acontecido subiam nos bancos e cadeiras, acumulavam-se diante do altar-mor, causando um certo tumulto, ao que eram empurrados pelos organizadores. Logo após era piamente depositada em seu esquife e levada em procissão, sob o pálio roxo, pelas principais ruas da cidade, juntamente com a imagem de Nossa Senhora.



REFERÊNCIA:

1. http://www2.uefs.br/sitientibus/pdf/40/12_as_seculares_imagens_da_roca.pdf


* Texto escrito por Washington Luiz Peixoto Vieira, pesquisador em História, e publicado em seu blog Opinion
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Publicado por Jornalismo

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