Literatvs - Confidências (José Walfrido Monteiro)

Quando me vires assim acabrunhado,
O coração nos olhos debruçado
Reparando o presente,

Não interrogues meu olhar tristonho
Carregado das sombras de meu sonho
De vitórias, descrente.

Não procures sondar a grande magoa
Que me deixou nos olhos rasos d’água
A sombra do desdém.

Se meu olhar agudo como um grito
Dilacerando as carnes do infinito,
Mergulha-se no além,

Foi visitar o lar do homem vencido...
Depois de muito e muito andar perdido
No mundo de ninguém,

Vem voltando febril e amargurado,
De angústias e tristezas carregado,
De lágrimas também.

Vem do bairro onde moram as desventuras,
Chega molhado de outras amarguras,
otejante de ais!

Trás o choro da infância abandonada,
No silêncio da noite agasalhada
Lençol frio demais!

Vem, querida, da rua da canalha
Do soluço de dor que se amortalha
Nesta noite sombria!

Vem dos homens nos crimes empregados
Procurando tiras dos seus pecados
O pão de cada dia!

Mas não podes compreender o meu martírio,
Porque a alma virginal do lírio
Só vive do perfume.

Como há de ler na alma da cabana
O poema de dor da raça humana
Um olhar de vagalume?

Os teus sonhos são leves serpentinas...
No carnaval de músicas divinas
De tua mocidade,

Marcas o passo verde da esperança...
Os olhos sonhadores da criança
Não vêem a realidade.

Mas meus olhar, amor, rompe as neblinas
Onde o presente esconde as peregrinas
Formações do porvir...

E eu vejo, em meio à dor da realidade,
Um pálido cadáver, a humanidade,
Nos pântanos cair!

Vês, em cada recanto, o amor vagando
E o ermo te parece um sonho brando
Mistérios de ilusão!

Eu ouço em toda parte a dor da raça,
O grito estrangulado da desgraça,
Na vasta solidão.

Tu vês na branca garça que esvoaça,
Um sorriso de luz, hóstia de graça,
Nuvem leve de amor!

Eu vejo nela a lágrima de um povo
Que aberta, lá no céu, busca de novo
As bênçãos do senhor!

Vês nos contornos mágicos dos ninhos,
A ação divinizada dos carinhos
Abertos à amplidão!

E a mim parecem partos obscuros
Trazendo ao mundo parias do futuro
Aves da maldição!

Quando, nos dedos frouxos do poente,
A túnica do dia incandesceste
Nos vales vai cair;

Quando a rolinha brava o vôo espraia
Por sobre a curva tarde que desmaia
E, ao longe vai sumir,

Escutas, como o canto da sereia,
O soluço das ondas sobre a areia
Às variações do mar!

E eu ouço passo quando a noite desce,
Passos leves demais, uns pés de prece
Que às praias vão pisar!

E, quando o vento, velho vagabundo,
Passa pisando a vastidão do mundo
No eterno viajar;

Quando na praia a onda se desfia
Expondo a trança branca e luzidia
Aos bafos do luar;

Quando à noite no campo os ermos falam
E as folhas secas docemente estalam
Castanholas no chão;

Quando o cão ladra a lua peregrina
Que embuçada no chale da neblina
Vagueia na amplidão;

Quando passeiam as almas taciturnas
E os grilos chiam povoando as furnas
De musicais segredos;

Quando as sombras se abraçam nas estradas
E o tufão dá satânicas dentadas
No crânio dos rochedos;

Quando o silencio trágico e profundo,
Nos ouvidos patéticos do mundo,
Vem murmurar desgraça...

Na hora, quando a treva invade a choça.
E o frio invade o quarto da palhoça
E a brisa invade a praça;

Quando o crepe da noite cai na rua
Cobrindo o peito da criança nua,
Gelado indiferente;

Sinto as estrelas, olhos de granito
Do rosto carrancudo do infinito
No remorso da gente.

E não posso dormir dentro da noite.
Consciência humilhada ao férreo açoite
Dos olhos da amplidão!

Vejo a pátria no século tombando,
No cadáver da honra tropeçando,
Cair na escravidão!

Choro a dor das angustias coletivas
Vendo a mão das elites agressivas
A pátria estrangular.

É esta, a grande dor que me devora,
A infinita tristeza que demora
No meu tristonho olhar.

E, agora que te disse dos meus prantos,
Se o mundo miserável não tem mantos
Que enxuguem minha dor,

Vem limpar meus olhos rasos dágua
Ou derramar, no cálice da magoa,
A lágrima do amor!

____________________
* Poesia escrita por José Walfrido Monteiro - Ex-prefeito de Icó e ex-deputado estadual
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Publicado por Jornalismo

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