Há 300 anos... Icós *

O Ceará, em comparação a outras capitanias, teve uma colonização tardia. Somente em 1611, após um século do descobrimento do Brasil, o Ceará foi de fato colonizado por Martins Soares Moreno com o levante do forte de São Sebastião.

Na época o Ceará era ocupado por grupos indígenas como os tupinambás ou potiguaras, tupiniquis e os tremembés. Dos tremembés se considera os Cariús, Cariris e Icós. A tribo Icós era grande, numerosa e habitava as serranias situadas entre o rio Salgado e o rio Jaguaribe.

Os grupos indígenas viviam em cabanas feitas de ramagens ou de folhas de palmeiras, reunidas em aldeia, normalmente cercadas por muralhas de terra ou madeira em estacada, e também por fossos, a fim de tal forma deter os inimigos da tribo. Viviam praticamente da caça e da pesca e cultivavam mandioca, milho, feijão e batata doce.

Os índios resistiram com tenacidade à invasão dos europeus. A primeira rebelião indígena registrada na história do Nordeste se deu de início em 1687 onde os Janduins travaram batalhas com os portugueses nas Ribeira de Açu, Mossoró e Apodi. Participaram da guerra os grupos indígenas Baiacus, Cratius, Icós e Icozinhos. Essa guerra, conhecida como Guerra dos Bárbaros, foi um dos mais graves e sangrentos conflitos do Brasil no século XVII.

No início do século XVIII eram constantes os conflitos entre os colonos e os índios, principalmente nas margens dos grandes rios do Ceará Colonial. Em 1708 houve uma expedição do capitão-mor do Ceará, Tomás Cabral de Olival, que praticamente dizimou as tribos dos Icós, Cariris, Cariús e Carateús. [...]

Nas proximidades da Serra do Pereiro e dos sertões de Cedro, estendia-se uma grande planície apropriada às atividades agrícolas, dada à fertilidade de suas terras. Com a efetiva dominação das terras cearenses pelos portugueses e com a “destruição” das tribos indígenas, começou a se formar pequenos povoados a beira dos rios cearenses.

Na ribeira dos Icós, terras antes habitadas pelos índios icoenses, os novos habitantes necessitavam de apoio do poder público para a permanência naquela terra. Foi quando o Governador Gabriel da Silva Lago (1704 – 1709) escolheu este local para erguer um povoado que defenderia os moradores da ribeira do rio Salgado, formando o Arraial Novo, primeiro nome dado ao Icó.

Com o levante do povoado foi necessário à construção de uma pequena capela, de um santo protetor (padroeiro) e de um padre para celebrar as missas, os batizados, as comunhões e etc. Veio para o Arraial o padre João Matos Serra, figura essencial na formação do Arraial. Este colocou como padroeira do pequeno povoado Nossa Senhora do Ó e ficou responsável pela administração do Arraial.

Com o reconhecimento político do povoadoe a chegada de um padre, Icó passou a ser chamado Arraial de Nossa Senhora do Ó. Das lutas que ocorreram nesta vasta planície, vale ressaltar a dos Montes e Feitosas, famílias numerosas, que desfrutavam de imenso prestígio na época e que dominavam a “ferro e fogo” vastas regiões.

Os Montes residiam nas cercanias do Icó e os Feitosas faziam moradia para os bandos dos sertões dos Inhamus (Região de Tauá, Crateús e Independência). Numa das lutas registradas nas proximidades do Icó, Francisco Monte perdeu uma filha. A esposa deste ficou penalizada em ver sua filha sepultada em pleno campo.

Foi então que a família Montes fez uma doação de meia légua de terra e mandou erguer uma capela sob a invocação de Nossa Senhora da Expectação, que posteriormente se tornou sede da matriz da freguesia criada em 06/04/1764.

A ordem régia de 17/10/1735 elevou o povoado em Vila, mediante proposta do Governador de Pernambuco, datada de 16/01/1735 através do Governador Domingos Simão Jordão (1734 – 1739), mas a solene instalação deu-se somente em 04 de maio de 1738 quando Vitoriano Pinto da Costa Mendonça, Ouvidor Geral da Capitania do Ceará (1735 – 1739) instalou a terceira vila do Ceará, Icó.

O velho Arraial foi elevado à vila em função, principalmente, do Ouvidor do Ceará (Exercia poder de Governador) residir no Arraial. Este residiu no Arraial por 10 anos e nela nasceu seis dos seus oito filhos. A época que o Icó passou a ser denominada Vila do Icó este povoado contava com uma população de pouco mais de 1.200 pessoas.

A vila do Icó passou a ser um importante centro coletor e distribuidor das mercadorias de procedência estrangeira, vindas do Aracati, que eram conduzidas em barulhentos carros de boi até o Icó, onde estacionavam, pois os caminhos daí por diante eram intransitáveis. Entre Icó e os centros consumidores, a condução dos gêneros era feita em lombo de cavalo, bestas e bois mansos.

No Icó passava as duas mais importantes vias da Capitania do Ceará; a do Crato, que continuava pelas várzeas do Jaguaribe até Russas e Aracati, e a do Piauí e São João do Príncipe para Pernambuco, onde partia também um caminho que atingia a serra do Pereiro. Favorecido por sua posição privilegiada, o Icó teve precoce desenvolvimento e alcançou rápida hegemonia sobre todos os outros povoados do interior.

Graças às suas ligações diretas com a vila de Campina Grande e Recife, a metrópole sertaneja do Ceará-Colônia iria cedo se libertar da tutela econômica do Aracati, tornando-se, por sua vez, centro comercial de primeira grandeza.

Em fins do período colonial, era o antigo Arraial de Nossa Senhora do Ó que abastecia de mercadorias estrangeiras os lojistas de Quixeramobim e Crato. Efetivamente, a evolução do Icó se processou de maneira rápida e impressionante, por ser um dos principais elos entre o sertão e o litoral cearense, tornando-se um importante centro comercial do final do século XVIII até a metade do século XIX.
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* TEXTO DE PAULO HENRIQUE AMANCIO AMORIM

::: Referências Bibliográficas:

BARROSO, Gustavo. À margem da história do Ceará. Fortaleza: Imprensa Universitária do Ceará, 1962.

STUDART FILHO, Carlos. Páginas de História e Pré-História. Fortaleza: Instituto do Ceará, 1966.

GIRÃO, Raimundo. Pequena História do Ceará. 2° ed. Fortaleza: Instituto do Ceará, 1962.

____________. Evolução histórica cearense. Fortaleza: BNB, 1985.
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Publicado por Jornalismo

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