Uma gama de postulados advindos de uma vasta quantidade de campos de estudos, bem como pressões sociais de diversos setores, como é o caso da mídia, dos órgãos governamentais e até mesmo da sociedade civil, tenta desconstruir as múltiplas faces do preconceito, rompendo/ quebrando, desse modo, com as diferenças e, sobretudo, com a erradicação do acesso aos bens de cunho coletivo.
Contudo, a materialização das múltiplas faces do preconceito ainda é algo muito presente nas práticas corriqueiras do dia a dia da sociedade contemporânea. Em alguns casos, não nos damos conta de como ela se dá nas práticas cotidianas.
E, até mesmo em países classificados enquanto “de primeiro mundo”, a forma como se dá o preconceito ainda é algo muito intenso. Países estes que deveriam compartilhar de uma perspectiva de respeito à diversidade, acompanhando, dessa maneira, todo seu desenvolvimento econômico e educacional. Entretanto, nem sempre as ideologias – formas de pensar e, conseguintemente, de agir, estão diretamente atreladas ao desenvolvimento econômico.
Em uma gama de países europeus, por exemplo, o preconceito em face de grupos de origem cigana ainda é algo bastante intenso, o que, em alguns casos, acarreta efeitos drásticos. Tal situação reflete bem a situação vivenciada na França nos últimos dias.
Ora, o caso mais recente da materialização do preconceito contra esse grupo ocorreu na França. País este que deportou a estudante Leonarda Dibrani, bem como sua família – pais e cinco irmãos -, em virtude da sua origem cigana. No entanto, os efeitos desse ato iriam se intensificar ainda mais, por conta da atuação do Presidente da França - François Hollande – que, em decorrência da pressão social, propôs o regresso da estudante ao país, desacompanhada de sua família. Isso ocasionou uma vasta quantidade de protestos ainda mais intensos no país.
Porém, aqui, no Brasil, essa situação não é muito diferente. Em outras palavras, o preconceito contra os grupos de origem cigana também ocorre. É claro que não com tanta ênfase e intensidade. Quem de nós nunca ouviu histórias dos nossos parentes mais velhos – avós, pais, tios etc. – sobre os ciganos.
Histórias sobre as vestimentas/ vestuário exagerados [roupas, anéis, colares, pulseiras etc.], histórias sobre suas práticas culturais estranhas, histórias sobre pragas que eles podem rogar contra nós, histórias sobre pequenos furtos, histórias sobre o fato de eles não serem pessoas de confiança etc..
Essas histórias, apesar de contadas de geração para geração as quais são vistas, em alguns casos, como histórias fictícias e desvinculadas da realidade, refletem a materialização do preconceito contra a diversidade dos grupos e de culturas. Podemos ir além disso. Todas essas histórias alimentam ainda mais a materialização do preconceito nas vivencias cotidianas desse grupo, impedindo, assim, que eles possam ter acesso a bens coletivos, como, por exemplo, educação, empregos, saúde etc..
Retomando o caso da estudante Leonarda Dibrani, mesmo que o foco das atenções tenha recaído sobre a política partidária e as práticas traçadas pelo atual presidente desse país – a forma como ele articula as questões atinentes à presença de imigrantes no país [o que reflete outra forma de materialização do preconceito], tal situação nos leva a refletir acerca de como ainda há preconceito contra grupos e culturas minoritárias.
O uso do termo “ainda” se dá pelo fato de a espécie humana, nos últimos anos, ter vivenciado a propagação de uma gama de avanços e progressos em múltiplos aspectos. Todavia, ela ainda conserva marcas e traços de práticas ideológicas vetustas, não atentando, nesse sentido, para a relevância de considerar a diversidade em suas múltiplas formas de materialização na contemporaneidade.
* Texto escrito por Silvio Profirio da Silva - Graduando em Letras pela Universidade Federal Rural de Pernambuco – UFRPE. [E-mail: silvio_profirio@yahoo.com.br]
0 comentários :
Postar um comentário