Quando tratamos da temática sociológica, é necessário que deixemos de lado as figuras estereotipadas que às vezes temos em mente.Cada contexto social é único e dotado de características próprias que se adéquam à realidade social, política e econômica daquele momento histórico. Entretanto, podem existir grandes semelhanças entre contextos sociais existentes em momentos históricos diferentes.
Identificar circunstâncias semelhantes é o nosso propósito nessa série. E as situações que comparamos - como o leitor já pôde observar nos artigos anteriores - são o contexto do Cangaço, fenômeno social que se estendeu de 1877 a 1940, com uma nova forma de banditismo social que vem se instalando no interior do nordeste brasileiro.
É possível que algumas pessoas tenham dificuldade em reconhecer outra forma de cangaço que não seja aquela liderada por Lampião. Isso se deve à extrema vinculação que há entre o cangaço e a figura de Virgulino. Quando se fala em cangaço, já fazemos automaticamente uma referência mental àquele homem alto, de óculos, de chapéu com aba levantada e cheio de anéis e ao seu bando.No entanto, é bom lembrar que o bando de Lampião não foi o primeiro nem o único grupo de cangaceiros a perambular pelo sertão nordestino. Portanto, nem só de Lampião vive o cangaço.
O CONCEITO DE BANDITISMO SOCIAL - Para simplificar essa discussão, melhor do que utilizar o termo “cangaço” é usar o conceito sociológico de “banditismo social”.
Esse conceito foi explicitado pelo sociólogo Eric Hobsbawn, em seu livro Rebeldes Primitivos, e trazido à realidade brasileira por vários sociólogos, entre eles Carlos Alberto Dória, em sua obra O Cangaço. O banditismo social se propõe a ser um conceito universal e não se prende a momentos históricos delimitados no tempo:
O bandido social é, em geral, membro de uma sociedade rural e, por paixões várias, encarado como um proscrito ou criminoso pelo estado e pelos grandes proprietários. Apesar disso, continua a fazer parte da sociedade camponesa de que é originário e é considerado como herói por sua gente, seja ele um “justiceiro” um “vingador” ou alguém que “rouba dos ricos e dá aos pobres”[...] É um criminoso comum que por algum motivo “caiu em desgraça” perante os poderosos locais, ou um rebelde, e que por isso mesmo [para as pessoas de sua comunidade] merece ser admirado, ajudado e protegido na luta contra os inimigos[...].[O cangaço, p. 11]
Percebemos que o conceito de bandido social abrange determinadas características: 1) a origem rural; 2) o ingresso no banditismo através da prática de um crime comum - fato que o torna um “fora-da-lei”; 3) e o tratamento que o bandido social recebe da sua comunidade - ou de parte dela – que o vê com bons olhos e o considera um injustiçado.O INGRESSO NA VIDA CRIMINOSA - Quase todos os cangaceiros de que se tem notícia, entraram no cangaço por terem praticado algum crime. Por serem perseguidos pela polícia ou por proprietários de terras, os cangaceiros optaram por viver à margem da lei, praticando outros crimes.
Inocêncio Vermelho entrou no cangaço em 1874, depois de cometer um homicídio na Paraíba; João Calangro ingressou no banditismo em 1876, depois que passou a ser perseguido pela polícia por roubar gado; Jesuíno Brilhante virou cangaceiro depois de assassinar um inimigo da família em 1879; Manoel Baptista de Moraes, o Antônio Silvino, entrou no cangaço para vingar a morte do pai, em 1896. E o famoso Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, virou bandido devido a conflitos familiares.
O próprio nascimento do cangaço é atribuído às dificuldades da vida campestre. Consta que a origem dessa forma de banditismo remonta à década de 1870, quando se deu a seca de 1877 a 1879, uma das mais fortes da história do nordeste.
Nesse período, os estados nordestinos passaram por uma situação extremamente complicada. No estado do Ceará, por exemplo, que possuía cerca de 800.000 habitantes, cerca de 60.000 pessoas morreram de fome e outro tanto migrou para a Amazônia, onde se iniciava o ciclo da borracha.
Para os que ficaram em terras nordestinas sobravam poucas opções: migrar, oferecer seus serviços nas fazendas dos coronéis ou entrar na criminalidade, vivendo à custa de roubos, ataques a cidades e resgates de sequestrados.
As dificuldades em encontrar meios de sobrevivência no campo, seja pelas secas, seja pela exploração imposta pelos coronéis, certamente foi um grande incentivador do cangaço.
O próprio sociólogo Eric Hobsbawn é quem diz: “O padrão do banditismo, como é quase sempre universalmente encontrado, é rural, não urbano. As sociedades rurais onde ele ocorre compreendem o rico e o pobre, o poderoso e o fraco, os que comandam e os que são comandados.”
A PROTEÇÃO DA SOCIEDADE - Outro fato interessante é que os cangaceiros, muito embora toda a violência com que praticavam seus crimes e as inúmeras vítimas que fizeram, eram respeitados e até admirados por muitos.A conotação de “Robin-Hood”s, dada aos cangaceiros de forma justificada ou não, é outra característica marcante no banditismo social.
Há na historiografia registro de pessoas que afirmavam ter recebido presentes e auxílio financeiro dos cangaceiros. Os “coiteiros” de Lampião, por exemplo, forneciam armas e boas informações ao seu bando em troca de bons pagamentos. E Virgulino, com o tempo, percebeu que era importante manter uma boa relação com população, o que facilitava as suas fugas e colocava o povo a seu lado e contra os “macacos” da volante.
O folclorista Leonardo Mota afirma que quando esteve em Juazeiro do Norte, para receber sua patente de capitão, Lampião, que ficou hospedado na casa de um parente, tinha que ir frequentemente à janela mostrar-se ao povo que o chamava querendo vê-lo; Virgulino, então, aparecia à janela e distribuía moedas aos populares.
A fama de Lampião, aliás, é que foi responsável pela grande atração que Maria Bonita sentia por ele antes mesmo de conhecê-lo pessoalmente.
A possibilidade de ingresso de mulheres no bando de Lampião romantizou ainda mais o cangaço.
Sociólogos reconhecem que para os padrões da época ingressar no cangaço dava certo status a muitos agricultores que levavam uma vida difícil no eito. Entrar para o cangaço era uma oportunidade de melhoria social, pois ser cangaceiro significava ter acesso a dinheiro, perfumes, jóias e mulheres. Podiam, inclusive, em algumas situações tratar de igual pra igual com os seus antigos opressores: os coronéis.
A poesia popular registrou esses fatos:
“Melhor vida do que essa
Nunca quis, nem quero não.
Boia boa e um pau de fogo
Na tropa de Lampião
Nesta vida do cangaço
Tem tudo que agente quer
Bom queijo e boa cachaça
Dança, música e mulher
Se o cabra não tem coragem
Que mude de profissão
Vá para o cabo da enxada
Plantar fava e algodão”
Nunca quis, nem quero não.
Boia boa e um pau de fogo
Na tropa de Lampião
Nesta vida do cangaço
Tem tudo que agente quer
Bom queijo e boa cachaça
Dança, música e mulher
Se o cabra não tem coragem
Que mude de profissão
Vá para o cabo da enxada
Plantar fava e algodão”
O próprio Lampião, em entrevista dada ao jornal O Ceará quando estava em Juazeiro do Norte para receber a sua patente, questionado se pretendia deixar o cangaço respondeu ao repórter Otacílio Macedo: “Se o senhor estiver em um negócio e for se dando bem nele, pensará em abandoná-lo?”
O NOVO BANDITISMO SOCIAL - Na descrição de todos esses elementos sociológicos demos ênfase ao Cangaço no seu ciclo de 1877 a 1940. Todavia, as condições que caracterizam o banditismo social podem estar presentes de forma latente em diferentes momentos históricos. A pobreza característica da sociedade rural em crise pode se manifestar de diversos modos em diferentes épocas.
Certamente nunca mais irá surgir entre nós um novo Lampião porque as condições da sociedade atual, como visto, são muito diferentes das da década de 1910 e 1920.
Entretanto, ainda hoje existem pessoas que possuindo origem rural, se aventuram em uma vida de crimes. Tais pessoas eventualmente colocam em perigo populações de cidades inteiras e se aproveitam da fragilidade da presença estatal para a execução de saques, assaltos e sequestros. Apesar de violência, contam muitas vezes com o apoio da população da sua região de origem que os considera injustiçados ou bem-feitores. Esses “cangaceiros modernos” são um exemplo perfeito de uma nova forma de banditismo social.
Através de entrevistas com populares e com policiais, pudemos observar que o caso do famigerado bandido icoense Zé Roberto pode se enquadrar no conceito de banditismo social. A sua origem rural, a forma como ingressou na vida criminosa - que não esmiuçamos aqui para não ferir suscetibilidades - e a verdadeira veneração que os populares do Conjunto Pedrinhas lhe devotam, pelas “ajudas” que ele dá àquela população, fazem com que ele seja qualificado como um “bandido social”.
* Texto escrito pelo advogado Heitor Amorim, integrante da Série “Um novo cangaço no sertão nordestino”
0 comentários :
Postar um comentário