Revisitar a história do charque, símbolo econômico e cultural de uma época em terras cearenses, especificamente em Icó e Aracati. Cavalos, bois, carros de boi. Estes elementos, misturados à caatinga, formaram por dezenas e dezenas de anos uma amálgama entre o sertão e o litoral do Ceará.No próximo dia 3 de maio, será lançado o documentário "Charqueadas", que traz os pontos apresentados anteriormente. O evento acontece no Centro Cultural Oboé (Rua Maria Tomásia, 531, Aldeota - Fortaleza), em Fortaleza, às 19h30.
ROTAS - Dentre as diversas rotas do charque no Ceará, uma delas estará registradas em imagens e depoimentos feitos por pesquisadores no interior do Estado. Trata-se da que segue o curso dos rios Salgado e Jaguaribe.
Asas filmagens foram iniciadas em 16 de janeiro e recentemente finalizada a parte de edição. O video tem a direção de Roberto Bomfim, tem a apresentação da Set Oceano Filmes, direção de fotografia de Dário Rocha e still de Jacques Antunes. O documentário tem o patrocínio da Coelce e os recursos da Lei de Incentivo Mecenas, da Secult do Governo do Ceará.
A QUEDA E HISTÓRIA - A matéria do Diário do Nordeste traz a informação de que a ideia original era que o documentário também tivesse cenas em Pelotas (RS).Foi para lá que o charqueador português José Pinto Martins, inicialmente instalado em Aracati, se mudou para fugir da grande seca de 1777.Mertins teria sido o precursor do charque no Siará (a província).
Segue a matéria afirmando que Pinto Martins levou a técnica da salga da carne para aquela região. As variações climáticas e a concorrência com o produto do Sul provocaram o declínio da primeira atividade econômica cearense.
"Se conseguirmos verba para lançar o documentário na Europa, vamos nos deslocar para Pelotas e fazer uma segunda versão do documentário. Acho muito importante incluir Pelotas, não apenas para mostrar como foi o declínio da charqueada no Ceará, mas também mostrar as similitudes entre o gaúcho e o nosso vaqueiro. Pessoas muito ligadas à terra, bairristas, valentes, enfrentando condições extremas", afirma Roberto Bomfim.
Aos depoimentos de historiadores e memorialistas, que fazem um balanço do impacto da pecuária extensiva e das oficinas de charque para a ocupação do interior cearense, somam-se as recordações e vivências de vaqueiros, ribeirinhos, comerciantes e fazendeiros no caminho entre Icó e Aracati.
Pessoas que testemunham um mundo em plena transformação com a tecnologia e as "modas" da juventude. Roberto Bomfim diz que muitos lamentam o fato de os filhos e netos não seguirem a atividade, que aos poucos está se perdendo.
A equipe ainda está procurando apoios para fazer o lançamento do documentário nas cidades por onde a expedição passou, como forma de agradecer toda a disponibilidade que encontraram pelo caminho.
"O que mais me marcou foi a pureza e a simplicidade desse povo. Depois de fazer esse documentário, eu me sinto mais cearense do que nunca. São pessoas que abrem as portas das suas casas, nos ajudaram em tudo que fosse possível. Nunca vou me esquecer do tambaqui de cinco quilos que o seu Luís, fazendeiro que vive a 25km de Icó, mandou fazer cozido no leite. Gostaria que todo cearense se dispusesse a fazer uma aventura", finaliza.
Hipótese - A charqueada foi o primeira atividade econômica de relevo no Ceará. Não existe um consenso sobre quem teria trazido a técnica da charqueada ou se ela foi desenvolvida na própria capitania. O pesquisador Geraldo Nobre, no livro "As Oficinas das Carnes do Ceará" (1977), levanta a hipótese de a charqueada ter sido trazida pelos descendentes do holandês Joris Garstman, que comandava o forte dos Reis Magos (RN).
Eles teriam ocupado a ribeira do Jaguaribe e de lá espalhado a técnica. O fato é que as oficinas aqui encontraram um ambiente propício. O vento constante, a baixa umidade do ar e o acesso a fontes salinas permitiam a boa secagem do produto.
Os portos eram privilegiados pela proximidade dos pontos consumidores. Com o declínio da carne do Ceará por conta das secas e da concorrência com o charque do Sul, deu-se início ao ciclo do algodão.
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