No Teatro da Ribeira - De Hospital a Casa de Espetáculos

A Série de reportagens especiais que o Icó é Notícia faz em 2010, no ano do sesquicentenário (150 anos) do Teatro da Ribeira dos Icós continua. A quarta parte trata da utilização feita no espaço sagrado da cultura cearense.

Logo após a inauguração, esteve em cena o amor de um médico por um povo - O Teatro tornou-se o Hospital para um povo atacado pelo cólera, ou, para ser mais preciso, cólera-mórbus. Este mal que acomete atualmente o Haiti, na América Central, foi um dos motivos do início da decadência do histórico Icó.


O CÓLERA - Esta doença é causada pelo vibrião colérico (Vibrio cholerae), uma bactéria que se multiplica rapidamente no intestino humano, produzindo uma potente toxina que provoca diarreia intensa.

Ela ocorre em localidades onde não há saneamento básico ou precário, visto que os dejetos humanos são a única fonte de infecção. Com a contaminação da água pelos dejetos, os que beberem do liquido ou tiverem contato com o mesmo ou comerem alimentos da área com água contaminada tem chances altas de contraírem a doença.


O ICÓ E O CÓLERA - Mesmo sendo uma das mais importantes cidades do Ceará na época de 1860, o Icó não detinha de um sistema de saneamento básico, com esgoto e recepção de água como se vê hoje em dia.

Essa situação era recorrente nos grandes centros do Brasil, como o Rio de Janeiro, que tinha como morador a família Real. Na época, faltava saneamento e a habitação era considerada de má qualidade. Isso tornou-o mais vulnerável ao surto epidêmico, o que veio a acontecer, com o cólera, em 1855.


O TEATRO VIRA HOSPITAL - Datado de 1860, o Teatro da Ribeira dos Icós teve início dramático em sua vida cultura. Isso porque, ao invés de abrigar espetáculos das diversas formas, teve como destino ser o Hospital de Icó em seu 1º ato cênico.

Quem retrata o fato são Álvaro de Alencar e o Barão de Vasconcelos, na Revista do Instituto do Ceará. Inicialmente, Alencar cita que a doença entrou no Ceará em abril de 1862, porém que informantes teriam relatado sua chegada antes, em fevereiro do mesmo ano, a 15 léguas do município de Icó.

A epidemia que atingiu rapidamente todo o Ceará, teria iniciado provavelmente em Icó, espalhando-se para Lavras, a então Telha (hoje Iguatu), e, logo após, Tauá, Aracati e Cascavel. O cólera atingiu a cerca de um terço (1/3) da população. E é aqui que entra o Teatro. Com o mal avançando a galope por todo o território icoense, comenta Alencar:

"Foi preciso transformar-se o Teatro Municipal (da Ribeira dos Icós) - belo edifício construído pelo Dr. Pedro Theberge - em um grande hospital, devido ao grande número de doentes da classe pobre."

Segue o texto com os números apontados por Álvaro de Alencar, e logo após ele afirma que o pior caso da doença foi em Icó, cuja situação era comentada pelos jornais da época que circulavam na então província cearense:

"Não resta dúvida de que o mais terrível cólera que grossou no Ceará, foi o do Icó cidade, então, populosa e de grande comércio.

Foi Nessa bela cidade, denominada justamente a Princesa dos Sertões, que foi terrível a epidemia, apresentando casos fulminantes, acometendo a cento e tantas pessoas.

Da importante casa comercial Gurgel & Irmãos, filial da do Recife, faleceu do cólera fulminante o seu chefe, Antônio Gurgel do Amaral, cidadão que era estimadíssimo em todo o sul do Estado, e também morreram todos os caixeiros, sendo a casa fechada por ordem do Dr. Juiz do Comércio.


Eram então clínicos no Icó - os doutores Pedro Theberge e Rufino de Alencar, que prestaram bons serviços, procedendo com louvável zêlo em benefício da população sofredora, como afirmou ao jornal "Pedro II", em o seu número 88, de 19 de abril de 1862.


Diz mais êsse jornal - que aludidos médicos cooperaram em comum e de mãos dadas para a salvação de maior número de pessoas.
A ilustrada redação dêste antigo órgão do partido conservador do Ceará, trouxe ainda a seguinte afirmação: <<>>.

É sabido que, no Icó, no primeiro ataque, o cólera acometeu em um só dia 105 pessoas, sucumbindo 5."

Esse era o retrato do então novo Teatro da Província, com pouco tempo de vida e muita importância desde sempre. O fato é que este espaço, localizado na Rua 7 de setembro, tem muitas histórias mesmo antes dos espetáculos culturais.

Com fatos tristes, por ocasião de mortes instantâneas do Cólera, mas também da união de dois homens médicos em prol de um povo que lutava pela vida instante a instante. No palco, a luta da vida com a morte.

Completa Alencar que

"O cólera do Icó e o de Maranguape pareciam-se com a cólera-mórbus asiático, de que nos trata a história da medicina, - formidável produtor de horror.

Deram-se casos fulminantes. Causou admiração as mulheres terem sido acometidas em número maior. Até maio de 1862, foram sepultados no Icó 421 coléricos.

O Barão de Vasconcelos também retrata a situação em Icó, com uma cópia de documento do arquivo público. Na comarca icoense, o texto cita outras pessoas importantes que lutavam contra o Cólera, a saber:

"Bacharel Juiz José de Medeiros, Juiz de Direito da Comarca e Presidente da Commissão de Soccorros - Médicos e outras pêssoas, sem discrepância, confessam que só à constância energica e à coragem desse digno funccionario se deve o não terem sido mais lamentaveis os effeitos da epidemia naquela comarca (de Icó), a primeira acommetida na Provícia, e onde a mortalidade era de 40 pêssoas por dia, havendo geral desanimo.

Joaquim do Carmo Ferreia Chaves, Capitão do Corpo de Polícia e commandante do destacamento - Prestou relevantes serviços, não só policiando a cidade e evitando o roubo, quando ella estava quasi abandonada, como também na qualidade de enfermeiro dirigindo um hospital, para onde conduzia os desvalidos, prestando-lhe os maiores cuidados. Considero-o do officialato da Rosa.

Padre Miguel Francisco da Frota, Viggario collado da Parochia do Icó - É sacerdote idoso, de bons constumes, e respeitável por muitos títulos. Prestou grandes serviços na administração dos Sacramentos em sua Freguezia dia e noite; e quando passou a tormenta no Icó e rebentou na Villa da Telha (hoje Iguatu) distante 10 leguas e abandonada do Vigario e Coadjuctor, o Padre Frota correu correu voluntariamente a soccorrer os habitantes daquella Freguezia, que estavam morrendo sem os recursos espirituaes. Merece a insignia Cavalleiro de Christo ou de Official da Rosa, se já tiver aquella condecoração."

Com estas citações, é de se saber as pessoas de força e de fibra que tentaram contornar um mal que se encontrava disseminado, o Cólera, que dizimou a população cearense e, principalmente, icoense, mas que não deixaram de lutar para vencer esta batalha. Assim teve início o Teatro da Ribeira dos Icós e trazido no título desta reportagem, de Hospital a Casa de Espetáculos.
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Publicado por Jornalismo

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