Manoel Inácio, o Caté, esteve em meu escritório para me comunicar que tinham “acabado” com o campo de futebol do Gama. Seu semblante era um retrato de pura amargura. Desorientado me perguntou aonde iria, agora, treinar o seu time (São Geraldo).
Tentei não acreditar porque era mais um terrível, covarde e fatal golpe contra a sociedade esportista deste município, tendo em vista que recentemente acabaram, ou melhor, “mataram” o último campo de futebol da cidade: o Cirão. Seria assassinato em série dos nossos campos de futebol?
Porém ele confirmou que era verdade, e ainda, assim, fui pessoalmente constatar a afirmação. É verdade. A foto não nega: destruíram o campo do Gama, o penúltimo campo de futebol da cidade. Em seu lugar começam a erguer uma escola técnica.
Nada contra. Acho importante, mas tinha e tem tantos espaços aonde poderia ser construída tal escola, que a sua realização justamente em cima do campo, parece-nos ser uma coisa premeditada. Não seria o caso de, em vez de exterminar o campo, reestrutura-lo e anexá-lo a tal escola para servir à comunidade estudantil e aos demais desportistas?
A obsessão da administração pública em acabar e destruir os últimos campos de futebol da cidade é de uma gravidade sem precedentes. É mais que isto: é uma irresponsabilidade que se aproxima e se equipara a uma conduta criminosa, até.
Ao acabar com os terreiros de futebol, as autoridades impedem mais do que a prática de esporte, ele estanca com os laços sadios da convivência social que engloba os seus praticantes; ele lança os atletas no abismo da ociosidade que pode descambar para atalhos que levam à marginalização. Isto se tornará mais que um problema social, será, adiante, um problema de saúde pública, com conseqüências desastrosas.
E que ironia, quando o Brasil se prepara para sediar uma Copa do Mundo, com o governo federal incentivando projetos de ampliação de novas praças esportivas, inclusive, com liberação de dinheiro, aqui no Icó é feito o caminho inverso: a meta é acabar com os poucos palcos esportivos que existem.
É uma perversidade incomensurável com os atletas e desportivas icoenses, é um crime de lesa-pátria, é uma humilhação, é um profundo desprezo.
Há quem diga como forma de amenizar a gravidade, que a escolha e a concessão das titularidades desses espaços foram obra grandiosa da administração do ex-prefeito Cardoso Mota. Convenhamos que não seja custoso crer na veracidade de tal informação, e não será novidade nenhuma que ele tenha deixado tão maldita herança para os desportistas icoenses.
Porém, isto não afasta a responsabilidade da atual administração, que poderia, pelo menos, ter apresentado alternativa de outros espaços, demonstrando, assim, preocupação, respeito e interesse em preservar os campos de futebol da cidade.
Ao aceitar a destruição e o extermínio dos campos, mesmo em detrimento de obras nobres e importantes como clínica e escola, o poder público desassistiu e desconsiderou os direitos de milhares de atletas e desportistas icoenses, contraindo, também, responsabilidade, em cuja mágoa coletiva florescerá uma imensa nódoa que estará sempre estampada na logomarca do seu governo.
Fui criado jogando bola nas várzeas desta minha tão sofrida, mas querida terra. Naquela época, não se contava campos de futebol. Eram tantos. De Zé Barreto à Várzea do Colégio. De Nato ao pé da Serrota de Zé Alberto. Tudo era campo.
Hoje nos vemos na condição de deserdados, de despojado de um pequeno espaço, que para nós é sagrado: um campo de futebol. Qual foi o crime que nós atletas cometemos? Que maldade praticamos nós amantes e praticantes do futebol para merecer tão cruel castigo? Com a palavra as autoridades, que com certeza darão o silêncio como resposta.
Façamos também a nossa mea culpa, pois quando acabaram com o campo do Cirão não houve reação da nossa parte. Não tivemos nós, enquanto atletas e desportistas, coragem para lançar, pelo menos, um grito de insatisfação e de indignação.
Ficamos assistindo tudo impassíveis e tolerantes. Hoje “Mataram” mais um campo e a nossa reação é a mesma: irresponsavelmente estática. De outra banda, é necessário registrar que a entidade representante dos clubes de futebol desta terra, a Liga Desportiva Icoense, assistiu, também, a tudo sem exercer o seu dever de lutar e combater as ameaças, os riscos e prejuízos lançados contra a comunidade esportiva que representa, e este silêncio é assustadoramente imperdoável.
Dói. Dói profundamente assistir tudo isto sem possibilidade de reversão. Com certeza, no futuro, quem não teve capacidade para pressentir a gravidade da prática dessas ações, verão o prejuízo irrecuperável que foi produzido pelo extermínio de simples campos de futebol.
Anexando registro de minha desmedida tristeza, comento aqui que um compadre dizia sempre: “Bendita da desgraça quando não vem acompanhada”. Para confirmar tão acertada profecia, um pouco mais adiante, o jovem atleta e goleiro Flaviano, me deu a triste e inesperada informação de que o nosso amigo e grande zagueiro Zé Tibaca tinha falecido em Fortaleza, fechando, assim, o ciclo agourento das más noticias para todos nós atletas e desportistas da terra do louro.
Neste momento, na qualidade de um inveterado apaixonado pelo futebol, ainda um teimoso atleta, me resta escrever esta enfezada indignação e, ao fazê-la, dedico e presto homenagem ao atleta Zé Tibaca, que pelo menos não terá que carregar e suportar a angústia, a humilhação e o vazio provocado pela irresponsabilidade dos inimigos dos praticantes do futebol desta terra.
* Texto de Clairton Oliveira e publicado no Jornal Notícias do Vale
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