Houve um tempo em que as famílias preparavam seus filhos e principalmente filhas para o enfrentamento da vida com a arte de quem sabe de tudo um pouco. Cozinhar, Costurar, bordar, música, canto e principalmente leitura, aí incluído o idioma francês, com o charme e a beleza que vinha desde a revolução francesa e o renascimento que prevaleceu na cultura intelectual do Brasil.Eutímia Maciel Moreira, eternamente e carinhosamente conhecida por Timinha, foi uma dessas moças que viveram em tempo de tanta cultura e de tanto romantismo.
Era a época de ouro, em que toda casa de família da aristocracia icoense tinha um piano na sala com que as moças mostravam seus dotes nos momentos especiais em que às portas se abriam para a recepção aos convidados.
Timinha, além de tocar piano, tinha uma vocação maior: o canto lírico. Nascida em 04 de junho de 1925, filha de Manoel da Silva Moreira, “Senhor” e Maria Maciel Moreira, “Santa”, Timinha nasceu em Alto Santo, mas foi em Icó que aportou para sempre, ainda garota, e incorporou naturalmente a cidadania icoense.
Foi icoense e amou o Icó com a mesma singeleza das flores de maio que ela arrumava com tanto zelo e cuidado no altar da coroação de Nossa Senhora a cada mês de maio. Professora, amante das artes, cantora de bela voz e timbre lírico, entoou canções apenas nas igrejas, principalmente do Senhor do Bonfim e de Nossa Senhora da Expectação.
Aliás, o catolicismo e a educação foram suas grandes paixões, para as quais dedicou toda sua vida. Não casou nem teve filhos, mas ajudou a construir o caráter, o conhecimento e a personalidade de muitos. Não há, na geração da metade do século passado, que não tenha sido aluno de Timinha, seja em escolas públicas, seja em sua escola privada, em sua casa, e não tenha aprendido com ela a grande arte e magia da escrita de datilografia.
Filha de longa e tradicional família foi com a Irmã Maria Irismar Maciel Moreira, Mazinha, magnífica professora da língua portuguesa, com quem dividiu a vida e com quem carregou de forma inabalável o simbolismo da moral, do caráter e da ética.
Juntas testemunharam como educadoras as transformações do Icó e acompanharam com alegria e contentamento as histórias daqueles que foram por elas educados e prosperaram na vida. Professores, bancários, empresários, advogados, engenheiros, médicos, promotores, juízes e tantos outros começaram suas carreiras pelas mãos milagrosas da dupla Timinha e Mazinha.
Como administradoras sustentaram por mais de 15 anos a direção do Colégio Senhor do Bonfim, onde elas próprias foram educadas sob a rígida orientação das Filhas de Santa Tereza.
Segunda-feira, dia 11 de maio, às 23:00h, véspera do dia consagrado a Nossa Senhora de Fátima que ela tanto cultuou, Timinha parou de respirar e partiu ao encontro dos anjos, da legião benfeitora dirigida por Maria, que certamente veio recebê-la para conduzi-la de volta ao estágio da espiritualidade.
Mazinha, pela primeira vez na vida, terá que conviver com a separação da grata presença que lhe foi companhia nos últimos 84 anos. Timinha foi levado no mês de Maria, quando ela repetia desde a juventude o ritual de aprontar garotas em tenra idade para o divino momento da coroação a Nossa Senhora.
A ornamentação, as flores, os cânticos, as roupas das que ofertavam e das que coroavam. Tudo sempre cuidado com o maior zelo, tarefa que já neste mês de maio alguém terá que fazer por ela.
Filha do Sagrado Coração de Jesus, católica ativa e fervorosa, artista e mãe de tantos filhos que ajudou a educar.
Timinha segue em paz, numa tarde de maio, em dia com fina camada de garoa, quando ainda é inverno e quando todas as singelezas celestes estarão de mantos abertos para recebê-la.
Vai com Deus Timinha, vai pela mão de Maria, o céu está em festa com milhares de anjos a entoarem as celestes canções que tanto cantaste.
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* Texto escrito por Getúlio Oliveira e publicado no Blog de Fabrício Moreira
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