Memória: A Rua Larga do Icó [ensaio]


A Rua Larga do Icó, para as gerações atuais, nitidamente da última década, tem se transformado ou se transfigurado na “Praça do Forricó”. Um sacrilégio a um dos mais antigos logradouros históricos do Ceará.

E embora com novas utilidades na cotidianidade perde a sua memória como a estrada geral do Jaguaribe ou a estrada nova das boiadas, como era conhecida no século XVII ao XIX, quando aos poucos vai sendo apropriada pelas habitações e novas utilidades, tais como o mercado público, depois transferido para o local onde encontra no centro comercial e hoje tomada pela grande Igreja de São José e de todas as festividades de grande monta.

Ela também não pode ser designada de "Largo do Théberge". Ora, quando o famoso médico Pedro Théberge em Icó viveu no século XIX, aquele espaço já existia há duzentos anos, embora Théberge tenha mandado erguer o Teatro e administrado os melhoramentos da Casa de Câmara e Cadeia.
É certo que os tempos são outros e dos velhos tempos do Gado Bovino, quando era por aquele corredor que havia pouso para os vaqueiros, tropeiros e viajantes, com seus comboios. “Das antigas estradas do Ceará colonial, três são de fundamental importância para a compreensão do papel da pecuária na efetiva ocupação do território cearense: a estrada geral do Jaguaribe, a estrada nova das boiadas e a estrada das boiadas.

A primeira seguia todo o rio Jaguaribe, do Icó à Aracati. A segunda partia do Rio Grande do Norte, alcançava o rio Jaguaribe e seguia o Anabuiú”. “Chegando em Quixeramobim. Daí partia em duas direções, uma para o lado de Crateús e a outra para o lado Sobral. A terceira alcançava o médio Parnaíba cruzando o sertão cearense. Partia de Icó, passava por Iguatú, Saboeiro, Tauá até o Piauí”. ²

Foi ao longo dessas estradas que de forma geral seguem as margens dos rios [Jaguaribe, Salgado, Acaraú, etc.] foram se estabelecendo as famílias dos colonizadores primitivos do Ceará [à exemplo do Rio São Francisco] e ao longo dos séculos fixaram a sua moradia, vindos de todos os cantos no Nordeste, de Pernambuco ou da Bahia e mesmo de Portugal. Gente que corajosamente embrenhou-se território adentro diante de todas as intempéries das caatingas e de quantas dificuldades advieram.
"Aqueles que se aventuraram na empresa do Ceará eram ao mesmo tempo conquistadores, povoadores e colonizadores. Alguns, aventureiros apenas, mas, a maior parte, indivíduos com uma meta, uma vontade de engrandecer a pátria portuguesa e reviver os heroísmos dos primeiros penetradores do solo brasileiro. Carregavam no sangue a herança dos velhos troncos avoengos, a par de uma fé ardente, tanto no fervor da prática religiosa como na crença de que estavam dando um testemunho de tenacidade e firmeza". ³

Nesses territórios desenvolveu-se a cultura do gado e posteriormente a do algodão, que deram bases econômicas ao Ceará, e forneceram à Europa e Estados usidos algumas matérias primas para a sustentação da revolução industrial.

Nesse contexto foi “a cidade do Icó, elevada à condição de vila em 1738, nasceu onde situava-se o arraial da família Monte com uma função eminentemente ligada ao comércio, pois ocupava uma posição estratégica na trama da atividade criatória.

Situa-se a meio caminho entre as pastagens do Piauí, no vale do Parnaíba e o porto do Recife, no cruzamento das duas principais estradas das boiadas do Ceará colonial - a estrada geral do Jaguaribe e a estrada das boiadas – o que acentuou a sua importância na rede urbana em formação. Icó segue a lógica das cidades medievais que surgiram com o incremento do comércio e encontravam-se estrategicamente localizadas no cruzamento de dois caminhos.

A função comercial de Icó, relacionada em sua origem à atividade criatória, persistiu até à sua estagnação econômica no século XIX. Mesmo com o declínio da economia pastoril em decorrência do surgimento das novas pastagens no sudeste brasileiro, em decorrência das secas de 1777-1778, 1790-1793 e posteriormente, no século XIX, com o aumento da produção algodoeira no vale do Jaguaribe; Icó manteve esta importância”. ²

Desta forma entendo que a Rua Larga merece um resgate de sua memória original talvez se criando ali um memorial ao Vaqueiro, ao gado e ao colonizador primitivo e não se eternizando como a "Praça do Forricó".


REFERÊNCIAS:

1. STUDART FILHO, Carlos. Vias de communicação do Ceará colonial IN: Revista do Instituto do Ceará. TOMO LI / ANNO LI. Ramos & Pouchain. Fortaleza . Ceará. 1937, citado na obra de Jucá Neto;

2. JUCÁ NETO, Clovis Ramiro. No Rumo do Boi - As vilas do Ceará colonial ligadas à pecuária;

3. site: http://www.angelfire.com/linux/genealogiacearense/index_povoadores.html


* Texto escrito e imagem [montagem] de Washington Luiz Peixoto Vieira, publicado em seu blog Opinion
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Publicado por Jornalismo

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