Língua, Cultura e Ensino: As Variantes Linguísticas no Enem

Durante décadas, o ensino de Língua Portuguesa esteve centrado, predominantemente, na abordagem da Gramática Normativa.

Com base nesse enfoque, a prática docente dessa disciplina voltou-se para a abordagem das variantes formais [o padrão culto da língua], que constituía o dialeto de prestígio. Contudo, a partir da década de 1980, ocorreram diversas modificações [oriundas dos estudos das Ciências da Linguagem] no ensino de língua.

Dentre essas modificações, podemos citar a mudança na concepção de língua, que passa a ser concebida em uma perspectiva de plasticidade, isto é, a língua em sua multiplicidade de usos.

Com isso, surge “uma nova visão, que reconhece a diversidade do português em diversos níveis” [Cardoso, 2003, p. 27]. Essa nova perspectiva tem sido adotada em diversos processos seletivos, como é o caso do Enem.

Segundo a autora [2003, p. 28], “a língua falada em um país não é um sistema homogêneo, mas um complexo de variedades determinadas por fatores regionais e situacionais”. É nessa perspectiva que as mais recentes provas do Enem são orientadas por uma concepção de heterogênea de língua, o que culmina na abordagem das variedades linguísticas [inclusive, as menos prestigiadas socialmente].

Mas afinal, o que é variação linguística? Quais os seus tipos? Primeiramente, ela consiste na forma como a língua muda em função de diversos fatores, como o grupo social, o tempo, a profissão, o espaço geográfico, o sexo, a etnia e a situação comunicativa. Partindo desse pressuposto, as variantes linguísticas dividem-se em dois tipos. O primeiro tipo é “a variação dialetal [ou dialetos]”.

Neste tipo, a mudança na língua ocorre em virtude de aspectos: sociais [classe/grupos], regionais [espaço geográfico], temporais, faixa etária, profissionais, étnicos etc. [Travaglia, 1997]. Uma ocorrência que pode ilustrar esse conceito é o fato de alguns objetos terem seus nomes alterados em decorrência da região (espaço geográfico) onde ocorrem. São exemplos disso:

* charque [Nordeste] x carne seca [Sudeste]

* jerimum [Nordeste] x abóbora [Sudeste]

* macaxeira [Nordeste] x aipim, mandioquinha, mandioca [outras regiões], entre outros.

Além desse caso, podemos citar a diferenciação na linguagem feminina e masculina, a diferenciação na linguagem de pessoas de idades diferentes, a diferenciação na linguagem profissional [entre um advogado, um médico, um policial, um operador de telemarketing etc.] a diferenciação na linguagem dos grupos [entre os skatistas e os emos, por exemplo].

O segundo tipo é a variação de registro [ou de estilo, estilística, situacional]. Nesse tipo, a mudança na língua acontece em vista da situação comunicativa, ou seja, o falante adéqua sua fala por conta do momento comunicativo [ouvinte].

Por exemplo, a linguagem que utilizamos em momentos informais [conversas com parentes, vizinhos, amigos etc.] não é a mesma que utilizamos em momentos que requerem os usos formais da língua [apresentação, entrevista de emprego etc.].

Todos esses aspectos são abordados por Alkmim [2003] e por Travaglia [1997]. Em geral, os momentos informais permitem construções que fogem da Gramática Normativa, o que está em sintonia com Cardoso [2003, p. 28], que afirma que “as variedades linguísticas devem ser utilizadas de maneira diferenciada, de acordo com a situação de comunicação”.

A temática da variação linguística vem sendo abordada em diversos processos seletivos, como nas provas de vestibular e, acima de tudo, no Exame Nacional do Ensino Médio [Enem]. As mais recentes provas de Língua Portuguesa do Enem trazem questões com situações reais de comunicação [diálogos, quadrinhos, tirinhas etc.] que retratam a diferenciação da linguagem em função de diversos fatores.

Algumas dessas questões requerem que o aluno perceba, nesses gêneros textuais, as marcas de informalidade, como é o caso do tá [em detrimento do está], o pra [em detrimento do para], o uso de marcadores discursivos da oralidade [ah, né, qual é, hein, hum etc.], teve/tive [em detrimento de esteve/estive] etc.

Por exemplo: a questão 110 da prova do Enem 2010 [p. 12] requeria que o participante do exame percebesse que o personagem [Calvin] usa, no último quadrinho, uma ocorrência linguística informal. Outras questões requeriam que o participante do exame percebesse que os personagens utilizam tanto a variante formal, como a informal. Todos esses exemplos ilustram situações reais de comunicação, em que ocorre o uso de registros formais e informais.

Nesse sentido, a escola precisa abrir espaço para as variantes linguísticas, extinguindo, assim, a prática docente que se volta para as variedades mais prestigiadas socialmente [norma culta], em detrimento das variantes de menor prestígio [Cardoso, 2003].

Tal posicionamento se faz necessário para formar um falante competente [que utiliza a língua de forma heterogênea] e, sobretudo, para preparar os alunos para os mais diversos momentos com que irão se deparar, como é o caso do Enem e das provas de vestibular.

REFERÊNCIAS:

CARDOSO, Sílvia H. B. Discurso e ensino. Belo Horizonte: Autêntica, 2003.

ALKMIM, Tânia M. Sociolinguística. In: MUSSALIN, Fernanda; BENTES, Ana C. (orgs.). Introdução à Linguística: domínios e fronteiras. São Paulo: Cortez, 2003.

TRAVAGLIA, Luiz. C. Gramática e interação: uma proposta para o ensino de gramática no 1º e 2º graus. São Paulo: Cortez, 1997.


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* Texto escrito e enviado por Silvio Profirio da Silva - Graduando em Letras pela Universidade Federal Rural de Pernambuco [UFRPE].
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Publicado por Jornalismo

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