quinta-feira, 22 de março de 2012

Série "Um novo cangaço no sertão nordestino": Parte I - Cangaceiros de ontem e de hoje nas pequenas cidades

Há anos, o sertão nordestino vem sendo castigado pela ação de bandos armados que praticam crimes marcados e marcantes pela extrema violência e ousadia.

Ao que tudo indica, uma onda de criminalidade se instalou no interior do nordeste e tem tirado o sossego dos habitantes de cidades que até pouco tempo eram consideradas pacatas e tranquilas.

A invasão de cidades, a rendição de policiais, a detonação de agências bancárias, o sequestro de pessoas importantes de cada localidade e, muitas vezes, as mortes são características sempre presentes nas ações dessas novas organizações criminosas.

Somente no Ceará, nos últimos dois anos, foram invadidas cerca de 65 cidades, segundo informações do Sindicato dos Bancários do Ceará. Entre elas estão Banabuiú, Catarina, Madalena, Novo Oriente, Pedra Branca, Senador Sá, Irauçuba, Capistrano e Solonópole.

E o que mais chama a atenção é que uma dessas quadrilhas, recentemente desmantelada, era chefiada pelos icoenses José Roberto e Jânio Mota. Esse útimo, inclusive, está preso.

Esse estado de coisas faz lembrar os tempos em que o Cangaço reinava no nordeste. Tempos em que cabroeiras de cangaceiros seguidos pelas volantes cruzavam o sertão em uma briga sem fim que assustava a população.

E o termo Novo Cangaço é exatamente uma referencia à semelhança que existe entre a forma de atuação dos antigos cangaceiros e a dos bandidos da atualidade.

Quem conhece os acontecimentos que marcaram o fenômeno social denominado Cangaço percebe essa similaridade claramente. E para demonstrar isso, iremos tomar como exemplos o bando de Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, cangaceiro mais famoso e que mais tempo reinou no império do crime, e a quadrilha de José Roberto e Jânio Mota, caso mais recente e visível do novo banditismo social a que chamamos Cangaço Moderno.

Em uma série de artigos, a começar por este, iremos comparar a forma de atuação dos cangaceiros de outrora e com a dos cangaceiros do terceiro milênio. Com base em pesquisas e em matérias jornalísticas, conduziremos o leitor a um questionamento de ordem sociológica a respeito das causas que motivaram esses homens a abandonar suas e ingressar numa vida de crimes.

Os fatos comuns a essas realidades separadas pelo tempo são os seguintes:

Cidades pequenas como alvos - Nas décadas de 1920 e 1930, quando Lampião reinava no sertão nordestino, a tática utilizada pelos cangaceiros era muito parecida com a adotada atualmente pelos cangaceiros modernos.

Tanto uns como outros atacam pequenas cidades. E os motivos são óbvios: o pequeno contingente policial e a fraca presença do estado garantiriam o sucesso da empreitada.

Lampião teria dito a esse respeito que “em cidade que tem duas torres de igreja, cangaceiro não entra”. Virgulino pode até ter tentado dar a essa sua frase uma conotação religiosa, mas, com ela, deixou clara a sua preferência pelas vilas e pequenas cidades. Tanto era assim que Lampião não conseguiu invadir Mossoró-RN, um cidade de médio porte para os padrões de 1927.

Não por acaso, o município de Catarina, palco da última investida criminosa da quadrilha de Zé Roberto e Jânio, no último dia 27 de fevereiro, possui menos de 20.000 habitantes. Em resumo, os cangaceiros se beneficiavam da fragilidade das estruturas do poder público. O mesmo acontece organizações criminosas atuais.

O modus operandi - A maneira de conduzir a ação criminosa também se assemelha muito entre os dois grupos. A dominação dos policiais locais, o sequestro de pessoas importantes, a fuga rápida, e o fato de ser sempre evitado o confronto direto com o reforço policial, são circunstâncias presentes tanto na ação dos cangaceiros da década de vinte como nos cangaceiros de hoje.

Curiosamente, ambos os grupos portavam armamento mais pesado que o da polícia. Enquanto Lampião recebia, por uma intrincada rede de fornecedores, armas de grosso calibre e modernas, a polícia das vilas que atacava brigava com antigos “teco-tecos”.


* Texto escrito e enviado pelo advogado e colaborador Heitor Amorim Muniz, componente da série especial "Um novo cangaço no sertão nordestino".

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