quinta-feira, 22 de março de 2012

Série “Um novo cangaço no sertão nordestino” - Parte II: Violência, vingança e sangue no sertão

Dando continuidade à série “Um novo cangaço no sertão nordestino”, eis aqui o seu segundo artigo.

Vale lembrar que a nossa intenção, nessa série, é apontar as semelhanças que existem entre o Cangaço das décadas de 1920 e 30 e a nova forma de banditismo social que se apresenta atualmente nas cidades interioranas do nordeste, causadora de explosões em agências bancárias, sequestro de pessoas e mortes.

Para atingir nosso objetivo, selecionamos exemplos marcantes de um e de outro grupo. Do primeiro, escolhemos o bando de Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, que aterrorizou os sertões de 1919 a 1938.

Do segundo, a organização criminosa supostamente montada pelos icoenses Zé Roberto e Jânio Mota, apontada como a responsável pelo assalto à cidade de Catarina, no último dia 27 de fevereiro, entre outros crimes. Esclarecemos que não é nosso intento comparar pessoalmente nenhuma das personagens desses dois momentos históricos diferentes.

A comparação entre pessoas seria impossível porque a figura de Lampião, seja pelas atrocidades que cometeu, seja por ser considerado o Rei do Cangaço com patente de capitão dada pelo “padim Ciço”, é carregada de misticismo e integra o patrimônio folclórico nordestino. Com méritos ou deméritos, Virgulino é agora um personagem da história e está em um pedestal que o coloca acima dos que lhe sucederam na criminalidade.

O nosso ponto de vista se direciona, então, para as características que se encontram presentes na forma de atuação desses dois grupos, e para a forma como foram combatidos pela polícia. Vejamos mais algumas dessas características:

A VIOLÊNCIA EXTREMA - A brutalidade é algo presente nas empreitadas dos dois grupos. Ao invadir uma cidade, na maioria das vezes, os cabras de Lampião executavam os policiais a sangue frio.

O pesquisador Hilário Lucetti conta que certa vez, em 1927, na cidade de Queimadas-BA, Lampião matou a punhaladas todos os seis policiais que se encontravam rendidos na delegacia.

O conferencista Leonardo Mota relata outro fato ocorrido em Pedra Branca-BA, no qual Lampião prendeu o sub-delegado da cidade, exigiu que ele se despisse, introduziu-lhe uma vela no ânus e o fez andar com a vela acesa, queimando aquela delicada região.

Em outra oportunidade, em 1931, Corisco, principal cabra de Lampião, pendurou o delegado da vila de Santa Rosa-BA, Herculano Borges, de cabeça para baixo num galho de árvore, retirou-lhe a pele do corpo com ele ainda vivo e o esquartejou.

No caso mais atual da quadrilha de Zé Roberto e Jânio, os jornais do estado noticiaram a morte de um policial militar com um tiro de arma calibre 12, pelas costas, durante o saque ao município de Catarina-CE. Muitos afirmaram que o policial já havia se rendido quando recebeu o tiro.

A PERSEGUIÇÃO IMPLACÁVEL - Segundo a pesquisadora Isabel Lustosa, foi em virtude das bestialidades que cometeu, principalmente em relação à polícia, que o bando de Lampião despertou a atenção do então presidente, Getúlio Vargas.

O presidente foi informado do acontecido com o delegado de Santa Rosa e decidiu não poupar esforços para exterminar o cangaço.

Deu carta branca ao interventor da Bahia, Juraci Magalhães, e enviou armas e dinheiro para aumentar a repressão aos cangaceiros.

Foram espalhados por todo o nordeste cartazes com a foto de Lampião em que era oferecida a recompensa de cinquenta contos de réis - quantia exorbitante na época - a quem o entregasse à polícia vivo ou morto. A decisão do presidente e a mobilização das volantes da Bahia, de Sergipe e Alagoas anteciparam o final do cangaço.

Em julho de 1938, Lampião, Maria Bonita e outros cangaceiros foram mortos na Grota de Angico-SE pela volante alagoana de João Bezerra. A volante recebeu informações do paradeiro de Lampião através de Pedro de Cândido e de Durval Rosa, fazendeiros “coiteiros” e, até então, amigos de Lampião.

No caso de Zé Roberto e Jânio, com absoluta certeza, a morte do policial em Catarina insuflou a ira da polícia e das autoridades estaduais de segurança pública. A partir daí, a polícia passou perseguir os bandidos mais firmemente, o que veio a resultar na morte de pelo menos quatro e na prisão de muitos deles, inclusive a de Jânio.

A VINGANÇA DA POLÍCIA - Depois de matarem Lampião, Maria Bonita e mais nove cangaceiros, a volante de João Bezerra cortou-lhes as cabeças e as deixou expostas como troféus nas escadarias da prefeitura de Piranhas-AL.

Já em putrefação, as cabeças foram levadas em exposição de cidade em cidade até chegarem a Salvador, onde permaneceram até 1969, quando finalmente foram enterradas.

As cabeças foram fotografadas enfeitadas com cartucheiras, fuzis, punhais e chapéus de couro trabalhado. As fotos correram os jornais do país inteiro e foram utilizadas por Getúlio Vargas como propaganda da eficiência de seu governo no combate ao banditismo.

Depois da morte de Lampião, o governo ordenou que os cangaceiros sobreviventes se entregassem em troca da garantia de suas vidas. Alguns se entregaram, outros se mudaram para outras regiões do país e uns poucos continuaram a lutar contra as volantes, a exemplo de Corisco que foi morto em 1940. E assim teve fim o primeiro ciclo do cangaço.

Em relação ao caso mais recente, a morte de quatro integrantes da quadrilha responsável pelo assalto em Catarina-CE, em perseguição policial, teve repercussão em todo o estado. As fotos dos mortos, alguns com tiros na cabeça, foram divulgadas em diversos jornais e blogs. O desmantelamento da quadrilha foi comemorado pela polícia, mas o principal líder, José Roberto, ainda continua sendo procurado pelo interior do estado.


* Texto escrito e enviado pelo advogado e colaborador Heitor Amorim Muniz, componente da série especial "Um novo cangaço no sertão nordestino".

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