Júlio César


Assim como tantos outros da minha geração, Júlio César foi a primeira peça de Shakespeare que li e, embora pouco tempo depois tenha descoberto Macbeth e, ao longo dos dois anos que se seguiram, o restante da obra shakespeariana, voltar a Júlio César é, para mim, sempre uma experiência notável.

Por ser tão bem-feita, tão direta e, relativamente, simples, a peça, na minha infância, era utilizada na escola, não aqui no Icó, mas no Rio de Janeiro. Porém, hoje em dia, quanto mais a releio e analiso em casa, ou a vejo encenada, mais sutil e ambígua ela me parece, não termos enredo, mas de personagens.

É bastante difícil entender a atitude de Shakespeare com relação a Bruno, Cássio e ao próprio César, mas nisso consiste um dos pontos fortes da peça. Digo “ao próprio César”, mas o papel de César é coadjuvante, numa peça que poderia ser intitulada A Tragédia de Marco Bruno. Sendo César uma figura histórica tão célebre, e o personagem mais nobre da trama, Shakespeare é obrigado a tomar-lhe emprestado o nome ao título da peça.

Os personagens de maior destaque nas duas partes de Henrique IV são Falstaff e Hal, mas a série tem por título o nome do monarca que regia à época, sendo essa a prática corrente de Shakespeare. Com efeito, César aparece em apenas três cenas, fala menos de cento e cinquenta versos, e é assassinado na primeira cena do terceiro ato, exatamente no meio da peça. Todavia, César está presente em toda a peça, conforme atesta Bruno diante de Cássio, morto pelas próprias mãos.

Júlio César, ainda és poderoso!

Teu espírito vaga pela terra

e faz virar nossas espadas contra

nossas próprias entranhas.



* Texto escrito pelo ator, diretor e professor Bené Tavares.
Publique no Google Plus

Publicado por Bené Tavares

This is a short description in the author block about the author. You edit it by entering text in the "Biographical Info" field in the user admin panel.
    Comentar no Site
    Comentar usando o Facebook

0 comentários :