sexta-feira, 15 de julho de 2011

A mulher sem pecado, de Nelson Rodrigues


Nas mémorias, confissões, entrevistas e conversas, Nelson Rodrigues nunca procurou atribuir um cunho de fatalidade ao encontro com o teatro. Sua verdadeira vocação seria o romance. Desde menino, devorava um romance depois do outro. De dramaturgia, só havia lido, ao iniciar-se no palco, Maria acachucha, de Joracy Camargo. E, na infância, viu Alda Garrido em burletas de Freire Júnior.

O desejo de ganhar dinheiro, para mitigar os vestígios da fome ainda próxima, alimentou o projeto teatral de uma comédia. Logo às primeiras páginas, a independência da criação transformou a história em drama terrível. As marcas vindas da infância e da adolescência sobrepunham-se a um propósito deliberado, que traía a vocação autêntica. Ainda bem que Nelson se deixou levar pela voz interior: nasce A mulher sem pecado, que já contém em germe todas as características do dramaturgo.

Escrito em 1939, o "drama em três atos" subiu à cena no dia 28 de dezembro de 1941, no Teatro Carlos Gomes do Rio de Janeiro. Crítica e público reservaram-lhe um sucesso de estima. Nenhuma grande efusão, mas a certeza de que se tratava de alguém dotado para o diálogo e com personalidade própria.

Eu me pergunto se o receio de não atingir o público, familiarizado apenas com as comédias de costumes e o dramalhão, não determinou aqui, e em muitas outras peças, o caráter folhetinesco da narrativa. A real intuição do ficcionista resgatou A mulher sem pecado da subliteratura. Na próxima escreverei um resumo dos episódios mostrando como Nelson mobilizou os efeitos tradicionais do folhetim: a falsa pista, o suspense, a surpresa final.


* Texto escrito pelo ator, diretor, professor e teatrólogo Bené Tavares.

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