O Livro Didático adotado pelo MEC: um olhar sob a ótica da Linguística *

Segundo Suassuna et alii(2006, p.227), “por um longo tempo, o ensino de Português centrou-se nas regras gramaticais que normatizam a variedade linguística padrão, apresentadas nas gramáticas tradicionais, como modelo do bom uso da língua”.

Nessa perspectiva, o ensino de Língua Portuguesa, no Brasil, centrou-se em uma abordagem puramente normativa, que extinguia as variantes linguísticas informais da prática docente.

Contudo, na década de 80, eclode uma intensa divulgação de estudos da Linguística [Estudos do Funcionalismo, da Linguística Textual, da Análise do Discurso, da Pragmática e da Sociolinguística]. É nesse cenário que a língua passa a ser concebida como recurso de interação social [atividade social], o que ocasionou diversas alterações na metodologia de ensino, na estrutura e na organização dos livros didáticos.

Um exemplo que pode ilustrar esse fato é o livro didático adotado pelo MEC, Por uma vida melhor, da coleção Viver, aprender. Recentemente, esse livro recebeu inúmeras críticas de diversos setores da sociedade [sob a acusação de levar o erro para os bancos escolares]. As críticas devem-se ao fato de as autoras abordarem um fenômeno linguístico que todas as pessoas fazem uso, a variação linguística. Em outras palavras, o fato de adequar a fala ao momento comunicativo [situação comunicativa].

Por exemplo, a linguagem que utilizamos em momentos informais [conversas com parentes, vizinhos, amigos etc.] não é a mesma que utilizamos em momentos que requerem os usos formais da língua [apresentação, entrevista de emprego etc]. (ALKMIM, 2003). Em geral, os momentos informais permitem construções que fogem da Gramática Normativa. São exemplos desse fenômeno: o tá [em detrimento do está], o pra [em detrimento do para], etc.

Todos esses fenômenos surgem da informalidade do momento comunicativo, o que contribui para que o falante opte por uma determinada construção linguística durante o ato verbal. Essa temática seria o que a Sociolinguística [Subárea da Linguística que trata da diversidade linguística, isto é, do caráter variável da língua], conceitua como variação situacional [ou também variação de estilística ou de registro], por meio da qual o falante usa a língua de acordo com o ouvinte ou com o momento comunicativo (ALKMIM, 2003).

Essas são as CERTAS OCASIÕES a que as autoras fazem alusão no livro didático em questão. Durante décadas, esses fenômenos linguísticos não obtiveram explicações. Por esse motivo, eram caracterizados como erros [e ainda são].

Nesse sentido, o livro didático em foco não faz apologia ao erro, mas destaca a plasticidade da língua e a necessidade de o falante dominar suas variantes, usando-as de acordo com sua escolha e com o momento comunicativo.

De acordo com Santos (2002, p.30), “nos últimos 30 anos, surgiu uma ampla literatura na qual se discutiu o modo como vinha se processando o ensino de língua materna no Brasil”. Esses estudos ocasionam uma substancial mudança nos parâmetros norteadores do ensino de Língua Portuguesa e, por conseguinte, mudanças na metodologia e no objeto de ensino dessa disciplina.

Surge, assim, o propósito de formar um falante competente, ou seja, um falante que esteja apto a utilizar a língua de forma heterogênea. Por essa razão, as autoras abordam esses usos linguísticos no livro didático em tela.


Referências:

SUASSUNA, Lívia; MELO, Iran Ferreira; COELHO, Wanderley Elias. Projeto Didático como Espaço de Articulação entre Leitura, Literatura, Produção de Texto e Estudo Gramatical. In: BUNZEN, Clécio & MENDONÇA, Márcia. (Org.). Formação do Professor de Ensino Médio: Desafios e Perspectivas para o ensino de Língua Materna. São Paulo: Parábola, 2006.

SANTOS, Carmi Ferraz. A Formação em Serviço do Professor e as Mudanças no Ensino de Língua Portuguesa. ETD – Educação Temática Digital, Campinas, SP, v.3, n.2, p.27-37, jun. 2002.

ALKMIM, Tânia Maria. Sociolinguística. In: MUSSALIN, Fernanda; BENTES, Ana C. (orgs.). Introdução à Linguística. Domínios e fronteiras. São Paulo: Cortez, 2003.

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* Texto escrito e enviado por Silvio Profirio da Silva - Graduando em Letras da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE).
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Publicado por Jornalismo

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